Sempre, a vida inteira
Fugindo da paixão
Fugindo da entrega porque a gente conhece
a dor
Está embutido no coração
está impregnado no ser
cada pedacinho da alma conhece a dor
conhece a perda
conhece o abandono
e por isso
A gente nunca se entrega de verdade
(grande mentira que nos contamos)
porque
cada movimento de entrega é profundo
tão profundo que se torna indivisível
misturam-se os átomos
misturam-se como café e leite
indivisíveis
e cada vez que acaba o ciclo
cada vez que temos que reiniciar
(é nosso destino sempre reiniciar),
renascer das cinzas, (renascer do inferno)
como um aborto, um parto violento,
uma ruptura ruidosa e dolorosa
vem fazer de nossa alma
uma colcha de retalhos mal costurados
cicatrizes que são transportadas
de amor em amor,
de paixão em paixão.
Tudo isto é besteira porque
nunca resistimos de verdade e
é nossa natureza
viver a entrega, procurar avidamente
a paixão
como o sapo e o escorpião
a gente não resiste
e logo estamos por ai
espalhando elétrons pelo ar
espalhando prótons
espalhando nêutrons
emanando sedução
fazendo marola na vida e
buscando almas ressonantes
para começar um novo ciclo de amor
para fundir novamente cada átomo e
valência com valência
criar moléculas de um produto químico
muito especial
chamado
Amor
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