No dia 13 de julho de 2009, Valdenir Benedetti deixou este mundo para viver entre as estrelas, talvez seu ambiente mais familiar. Porém aqui permanece imortalizado pela sua maneira de pensar e ensinar a astrologia. Muito amado por muitos, deixou uma marca indelével em seus alunos e em todos os astrólogos que com ele conviveram e que reconheceram nele um renovador da nossa arte de interpretar os céus. Como acontece a todos os que ousam transgredir, questionar e inovar, também teve lá seus desafetos, faz parte... Por sorte deixou inúmeros textos, alguns publicados outros não. Este blog foi criado para que todo o seu pensamento fosse acessível tanto aos que o conheceram quanto aos que, ao longo de seu aprendizado da Astrologia, com certeza dele ouvirão falar.



"Há pessoas que nos falam e nem escutamos, há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam, mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidase nos marcam para sempre."

Cecília Meireles







26.6.10

ESCADA DO DESEJO E DO MEDO

A ESCADA DO DESEJO E DO MEDO

Jean-Yves Leloup

Analise astrológica por Valdenir Benedetti



É bom lembrar que o homem evolui através do desejo e do medo. Não há medo sem um desejo escondido e não há desejo que não traga consigo um medo. O desejo e o medo estão ligados. Temos medo do que desejamos e desejamos o que nos faz medo.

VB – A idéia de medo para a astrologia está definitivamente relacionada ao planeta Saturno.

Na verdade, a expressão do medo atribuída a Saturno tem um fundamento: por ser o último planeta visível, dentro do modelo de elaboração de significados planetários baseado na simples analogia da correlação entre os ritmos e movimentos da natureza externa com a natureza interna do ser humano, o ultimo ponto visível exterior ao homem passa a representar o ultimo ponto atingível dentro do próprio homem, o limite, a fronteira final, isto partindo do pressuposto de que o ser encarnado só pode chegar até onde ele pode ver, pois o que está alem do visível é o mistério, é o desconhecido.

É natural temer aquilo que não conhecemos. É bastante humano e até mesmo instintivo e biológico não aceitar qualquer coisa que represente uma possibilidade de perder o controle, pois isto pode ser uma ameaça à vida e à sua continuidade. E o que não conhecemos é, simbolicamente, aquilo que está alem do visível, alem da estrutura conhecida, alem de Saturno, enfim.

Através desse raciocínio percebemos que Saturno não representa propriamente o medo, mas a fronteira entre o conhecido e o desconhecido, entre aquilo que é controlável e adaptável à nossas estruturas e aquilo que pode representar o caos e a diluição destas estruturas. O medo é daquilo que está alem de Saturno, alem do visível, e portanto, Saturno representa apenas a fronteira, o limite, a barreira entre aquilo que não nos assusta a principio e aquilo que não podemos controlar, que não conhecemos, e portanto, devemos temer.

Podemos ousar concluir que Saturno não representa propriamente o medo, mas a divisão entre a realidade administrável e a realidade desconhecida e ainda não experimentada; a fronteira entre aquilo que podemos manipular conscientemente, e os níveis da consciência que ainda não conseguimos acessar.

Isto muda tudo!

Este raciocínio exige de nós uma revisão dos significados e aplicações de Saturno, se por acaso concordarmos com ele, se por acaso ousarmos redefinir os conceitos tradicionais deste planeta e, em vez de Saturno simplesmente significar uma qualidade ou característica do ser, o medo, ele passa a representar a dinâmica do que poderíamos chamar de “ponto de refluxo da consciência”, ou seja, a barreira na qual o fluxo da energia vital, representada pela expressão consciente do ser, esbarra e volta para o centro, exatamente como as ondas de energia concêntricas emanadas de um objeto atirado na água, que em certo momento esbarram na borda do recipiente que contem esta água e reiniciam um movimento para o centro.

A atribuição da palavra medo a esta função, a este movimento da energia vital é uma adaptação relativamente cômoda do processo, uma maneira de lidar com ele reduzindo-o a lugares comuns e propondo um tipo de justificativa ou acomodação a uma situação qualquer. É muito mais fácil pensar em medo do que em limites a serem superados para que nossa energia se expanda e percorra outros espaços do universo, alem do que, o ser humano tem uma tendência incontrolável de reduzir tudo a denominadores comuns, a adaptar as experiências maiores e que dependam da ousadia de se transformar e se libertar, à sua realidade tacanha e a seu raciocínio tosco e preguiçoso, inclusive nós astrólogos.

Estabelecer a correlação astrológica entre o medo e o desejo é uma aventura da mente e do espírito, e é a viagem na qual vamos embarcar neste momento, por puro deleite e falta de preguiça de ousar pensar (mesmo que seja besteira), alem de uma boa dose de pretensão que não é própria de quem prefere aceitar a eterna explicação oficial, que nada vai mudar, nada mesmo.

Jean-Yves afirma que: “É bom lembrar que o homem evolui através do desejo e do medo”, e estudarmos o mecanismo do medo e do desejo através da linguagem astrológica (confrontando nossos próprios medos de que o que sempre pensamos e acreditamos talvez não seja exatamente aquilo...) pode ser uma boa maneira de se propor a evoluir. Não custa nada tentar, mesmo que não aconteça nada, pelo menos a mente e o espírito não vão ficar estagnados e talhar, como muitas vezes a gente vê acontecer.

Quando Leloup afirma que “não há medo sem um desejo escondido, e não há desejo que não traga consigo um medo”, está expondo uma idéia que se adapta absolutamente à geometria estrutural do horóscopo, pois o representante da dinâmica do medo, Saturno, se opõe tecnicamente, como regente de Capricórnio e de Aquário aos luminares, Lua e Sol, regentes de Câncer e Leão, signos que são opostos complementares de Capricórnio e Aquário.

Precisamos analisar cuidadosamente e gradativamente esta oposição e suas derivações para que a idéia não fique muito confusa.

1 – Saturno, por reger dois signos de “elevação”, signos da metade superior do horóscopo, da parte que representa o movimento diurno do Sol, portanto, a consciência e o mundo externo, podemos conjecturar que os limites simbolizados por Saturno se vinculam à realidade externa do ser, ao mundo social e à atividade consciente e objetiva, ou a uma experiencia ligada ao exterior e à consciencia mais que ao mundo interno do individuo e as energias inconscientes ou noturnas dele.

2 – A oposição entre Saturno de Capricórnio e a Lua de Cancer inicia e propicia a compreensão do mecanismo de complementaridade entre o medo e o desejo, como propõe Leloup, Saturno simbolizando o mecanismo do medo como expressão do medo de superar limites, e a Lua simbolizando o apego às velhas formas, ou à forma padrão como mecanismo mantenedor da própria vida, biologica e psicologica.

Na evolução de um ser humano, o medo não superado, o desejo bloqueado, vão gerar patologias. O medo superado, o desejo não bloqueado vão permitir a evolução. É o que Freud chama o jogo de Eros e Tanatos, do amor e da morte, o impulso de vida e o impulso de morte. Poderíamos dizer, em outra linguagem, que há em nós um desejo de plenitude, de Pleroma e o medo da destruição. E nossa vida evolui assim, através do nosso desejo de plenitude e o nosso medo de destruição.

VB – A compreensão dos medos é fundamental para superarmos estes medos, a compreensão dos bloqueios é essencial para superarmos os bloqueios, e neste momento a astrologia e o horóscopo individual se apresentam como ferramentas funcionais para chegarmos a esta compreensão, particularmente através da analise cuidadosa dos simbolos que representam o medo e o desejo: Saturno, lua, sol, Vênus e marte. Os outros símbolos também podem estar presentes na estrutura deste fluxo energético chamado medo-desejo, como agentes desencadeadores ou catalizadores do processo.

O desejo de plenitude e o medo da destruição mencionados por Leloup podem ser curiosamente atribuídos ao Sol (desejo de plenitude) e à Lua (medo da destruição).

O Sol como significador astrológico da Vida em si mesma, como referencia da realidade consciente, por ser a luz, o dia, a claridade, representa o desejo de ser real, de ser inteiro, de estar presente, de ser pleno enfim, portanto, o desejo de plenitude.

A Lua, como significador astrologico da preservação da vida (por isso a reprodução e seus mecanismos), é responsável pelo medo biologico da destruição e da interrupção da vida, medo da morte ou desejo de continuidade.

A correlação entre estes dois principios determina o fluxo da vida em si mesma, desejo de viver e medo de morrer, Sol e Lua em sua dança sagrada, consciente e inconsciente, luz e sombra, yang e yin, homem e mulher.

O medo biologico e natural de perder a vida e o desejo também natural de viver plenamente, de estar presente, tem como oposto complementar o planeta Saturno, regente natural dos signos opostos aos regidos pelo Sol e pela Lua, funcionando portanto como complemento e contraposição ao medo e ao desejo; sendo a referencia em alguns casos e a sombra em outros destas faculdades e deste movimento da propria vida, e por isso é atribuido a ele, Saturno, a responsabilidade pelo medo, pela morte, pela interrupção da vida, por todas incertezas que nos assombram e exigem um confronto nosso com o real, com o externo, com aquilo que faz na verdade funcionar o fluxo energético entre o Sol e a Lua.

Proponho a vocês uma escala, uma representação, uma imagem, e nós vamos tentar identificar as diferentes etapas do nosso medo e do nosso desejo, a fim de situar o medo de Jonas e situar o que na psicologia humanista chamamos o Complexo de Jonas.


Na primeira etapa, a partir do momento em que nascemos, temos um impulso de vida, o desejo de viver , e ao mesmo tempo em que há o medo de morrer. O desejo e o medo nascem juntos e, desde que o homem nasce, ele é bastante velho para morrer. Portanto a vida e a morte estão juntas.


VB – Temos que considerar que o momento do nascimento é representado astrológicamente pelo grau do signo Ascendente, e portanto, este ponto específico do horóscopo é quem determina esta primeira etapa, e é também onde se concentram este medo e esse desejo.

O nascimento e suas condições são muito bem representados pelo signo ascendente, seu regente e o planeta que porventura esteja na primeira casa. Daí que a qualidade e a natureza deste impulso, de certa forma pode ser descrita pelo signo Ascendente. Então, este impulso em direção a vida seguirá a direção marcada por este primeiro signo, e o medo de morrer também encontrará neste ponto sua referencia final, pois este ponto inicial da circunferencia é também o ponto final.

Mas os mecanismos objetivos, a forma através da qual exteriorizamos e reacionamos ao medo e ao desejo são representadas pelos planetas que analisamos acima, Sol, Lua e Saturno, e é neles que concentraremos nossa análise, sem descartarmos evidentemente outros significadores que os complementem.

Podemos considerar neste momento o quanto o Desejo e o Medo afetam nosso projeto de diva, como estes dois sentimentos essenciais modula, dirigem, administram, distorcem, entópem às vezes o desenvolvimento livre do projeto, da finalidade maior da vida que é representada pelo signo e pelas condições do ascendente. Quantar vezes a gente não se pergunta coisas do tipo “ mas estava indo tudo direitinho, o que aconteceu que de repente tudo desmoronou?”, ou “estou sem perspectiva, não sei pra onde ir, não encontro a direção que devo seguir”. Estas perguntas ou afirmações são características do Ascendente, são geradas pela dificuldade em encontrar a linha do destino e o significado da existencia, marcas da casa 1, e por traz destes dilemas está o Medo de “não nascer”, ou o medo de morrer e o desejo de viver, muitas vezes distorcido pela educação e poluido por modelos de vida que não coadunam com nossa essencia.

A posição do Sol e da Lua em nosso mapa mostra os mecanismos do desejo de viver. Apresentam os critérios e principalmente, qual a expectativa que construímos e quais as possíveis respostas do mundo exterior a estas expectativas. A posição de Saturno vai mostrar quais os mecanismo sociais que identificamos como limites para a nossa atuação, para o desenvolvimento de nosso projeto de vida; e por traz destes limites, está o constante medo de saber o que tem além deles, medo primitivo e biológico do desconhecido, medo da morte e da transformação, medo que é lapidado pela cultura, pelo “sonho do planeta” para nos tornarmos cidadãos padrão e não “causarmos problemas”. Enquanto isto.... vamos deixando de cumprir nosso verdadeiro destino, vamos deixando de usufruir os talentos e dons com que a natureza nos dotou para cumprirmos nosso verdadeiro papel neste plano da existencia, vamos distorcendo e reprimindo a função do signo ascendente e seus significados maiores, reduzindo muitas vezes este significado cósmico a uma mera descrição comportamental tola e pequena como por exemplo: “o ascendente é como a gente age”, “o ascendente é como a gente faz uma coisa pela primeira vez”, “o ascendente é a imagem que a pessoa apresenta para o mundo”, e todas estas descrições são as tolas colaborações reducionistas que nós astrólogos, por conivencia com a pequenez, por solidariedade ao medo do que está alem dos limites, cometemos.


Se este medo de morrer é superado, a criança vai procurar um lugar de identificação, um lugar de plenitude. E vem o desejo da mãe. De se fazer uno com a mãe. A mãe é o seu mundo, é o seu corpo. Ao mesmo tempo em que nasce o desejo de unidade com a mãe, este desejo de plenitude, nasce o medo da separação da mãe.


VB – Neste momento, primeiro estágio, primeiro movimento em direção a nós mesmos e ao nosso destino, percebemos a relação entre Saturno e Lua, e a dinâmica do eixo básico regido por estes dois planetas, as casas IV e X, ou Câncer e Capricórnio. O eixo do tempo se faz presente.

Aqui, superar o medo de morrer e encontrar uma linha do tempo para seguir, é se permitir fluir através da espiral do tempo, é “saber” que tudo tem uma origem e uma finalidade, passado e futuro. Esta percepção nos permite adiar o medo de morrer e se entregar à vida, e este é o impulso mais fundamental e certamente supera em todos os seres vivos o medo da morte, afinal é a própria razão de estarmos nesta dimensão da realidade: Viver.

Deixamos um pouco de lado o significado “medo” de Saturno e escolhemos instintivamente o aspecto “vida” representado pela Lua. E por fazermos esta escolha, estabelecemos uma relação intensa com todos os significados da Lua em nosso mapa , ou seja, definimos neste momento o padrão de nosso sentir, elaboramos os mecanismos básicos de defesa no sentido de manutenção e preservação da existência, criamos os “anti-corpos psíquicos”, aqueles mecanismos de manutenção que vão nos defender e sustentar o padrão mental que é inserido nesta fase de nossa vida, particularmente pela mãe ou por quem faz este papel.

Toda segurança que obtemos, seja na expressão da Lua, seja no contato com a mãe – sempre uma projeção e o resultado da expectativa da Lua em nosso mapa, pois é a mãe que podemos re-conhecer fora de nós – é uma base, um alicerce para a formação de nossa personalidade, são os filtros que vão definir no futuro o que pode entrar em nossa vida e o que não pode, o que ameaça e o que traz conforto e segurança, enfim, a segurança obtida neste momento é um tipo de estrutura ou de padrão ao qual nos apegamos, e do qual não pretendemos sair tão facilmente, e por isso o “medo da separação da mãe”, ou o medo de perder o contato com a Lua ou ainda, o medo de perder a conexão com os padrões de segurança e conforto que se tabulam neste momento da existência.

O medo ai é lunar, um medo essencialmente ligado ao significado da lua em nosso mapa. Claro que se pensarmos no significado “estrutura” de Saturno e no medo de perder a estrutura, teremos que dizer que dentro da Lua existe um Saturno também, mas ai é uma elucubração astro-metafisica-semantica. Estou propondo que existe um medo típico lunar, este medo de “sair da mãe” , que é uma extensão do medo de nascer e, ao nascer, morrer para a vida perfeita que tínhamos dentro do útero, a expressão biológica do Paraiso na terra.

Talvez este “medo lunar”, medo de perder as bases e romper com a proteção e conforto sugerido pela idéia de mãe, seja nosso principal e mais profundo mecanismo de resistência à transformação. Cada vez que uma situação nos ameaça e nos propõe uma mudança de padrão -- sentimental, material, geográfico, etc – apelamos para os “anti-corpos psíquicos”, um conjunto de regras e crenças e argumentos cuja única finalidade é a manutenção do que está ai e a rejeição do que ainda não está ai. Por exemplo, o Ato Falho, ou certos esquecimentos suspeitos, ou quando a gente precisa tomar uma atitude solicitada pelo instinto ou pelo coração e diz: “mas isto não tem lógica!”, sendo que fazemos uma porção de coisas que não tem a menor lógica, como se apaixonar ou desejar alguem, e apenas quando precisamos de um argumento para “não fazer” usamos esta expressão com a maior cara de pau.

A experiencia de um contato consciente com estes significados da Lua em nosso mapa pode ser profundamente libertadora, pois é ai que se localizam nossas mais profundas defesas à transformação, e é ai que a Lua se torna oposto complementar do aspecto de Saturno que a gente mais precisa superar: o Medo.


Mas para crescer, a criança deve se separar de sua mãe. Se ela não se separar de sua mãe, ficará sempre uma criança, não se diferenciará. E todo o papel de uma boa mãe é não apenas fazer sair a criança de seu ventre, mas fazê-la ir além de seu desejo. Fazê-la sair deste mundo que lhe é próprio, a fim de que ela possa atingir um outro mundo, particular a ela.


VB – Esta é a parte mais difícil. Se separar da mãe é, dentro da ótica da astrologia, conquistar um distanciamento crítico de uma série de atributos e significados da Lua e a configuração que a envolve, seu signo, aspectadores, dispositor, etc.

Se separar da mãe significa abrir mão de um padrão de conforto e manutenção da personalidade que foi gestado muito cedo em nós, quando ainda nos alimentávamos no seio e no útero, e todo nosso instinto de preservação de nós mesmos resiste bravamente a isto. Biologicamente é complicado isto, e por decorrencia, psicologica e emocionalmente também é.

Jean-Yves propõe uma participação da mãe no processo de libertação da criança, para que ela possa “atingir ou outro mundo, particular a ela”, ou seja, sintonizar o próprio ascendente e o próprio destino. Como isto seria sob o ponto de vista da Lua no mapa natal?

A palavra cons-ciencia é oportuna neste momento. Ter consciencia desta mãe que nos habita e torna-la uma aliada que nos dá a mão para que sejamos nós mesmos é um trabalho que exige coragem, mas é bastante possível, principalmente se não ficarmos usando o horóscopo para descrever e justificar e simplesmente manter o nosso nível de exigência. Mas para isto, para conquistarmos este estado consciente, precisamos “olhar nossa mãe nos olhos”, e este gesto significa aceitar um outro significado da Lua, alem da criança que ela representa: a mulher.

Enfrentar esta “mulher” que nos habita é talvez o grande exercício da conquista, a maior e mais trabalhosa sedução que podemos exercer neste plano, pois é a única maneira dela nos dar a mão e tornar-se nossa aliada, tornar-se algo alem de nossa mãe, tornar-se nossa companheira de verdade e andar junto de nós, lá dentro de nós, mas ao nosso lado.

Olhar esta mãe nos olhos até que a aceitemos como uma igual, como nossa “mulher” – e isto vale para as pessoas de ambos os sexos – significa correr riscos, significa abrir mão do aspecto protetor e nutriente da mãe e aprender a conquistar isto por nós mesmos, significa perder o medo que a humanidade tem da mulher, desde Eva e seu gesto libertador, ou de Lilith e sua transgressão, ou todas as mulheres livres da historia da humanidade, todas as feiticeiras, todas as prostitutas e todas as senhoras do gozo, tão temidas por seu poder libertador, tão temidas por sua capacidade de “sair de casa” e dar a mão ao aspecto masculino de nossa personalidade, ou à criança desamparada que não quer atravessar a rua e tem medo de se perder no supermercado, tão temidas por sua capacidade infinita de amar...

Muitos homens, talvez a maioria, por não terem consciência do poder de sua Lua, por não se permitirem perceber que podem abrir mão dos anti-corpos e da necessidade uterina de cuidado, buscam em cada mulher a mãe que vai leva-los de volta ao útero e à proteção padrão, à eterna repetiçõao do papel do menino carente.

Quanto às mulheres, por não conseguirem acessar este significado da Lua, esta outra oitava de sua energia, se mantem pequenas e ancoradas na ideia de que tem que ser mãe, prisioneiras da maternidade acomodativa e da obrigação de serem nutridoras eternas, ao custo de perderem, ou de nunca conquistarem sua própria identidade e liberdade, e por isso tornam-se pessoas carentes e se aprimoram em desenvolver sutis e refinados mecanismos de manutenção e eternização deste padrão, seja através do controle, seja através da sedução. Isto nos permite compreender um pouco a eterna insatisfação feminina, pois, como estar satisfeito se o papel que representamos nos afasta de nosso destino e nossa essencia?

E por falar em sedução, insisto em que ambos – homem e mulher – precisam seduzir esta mulher que habita nosso interiores, e o método é a consciencia, o caminho é parar de usar o simbolo para justificar um estado de coisas, como se a simples descrição já fosse a solução de tudo, o instrumento é ir alem dos significados aceitos e standartizados da Lua, aqueles que tantos autores coniventes com o padrão nos permitem conhecer. Chegar a estes significados é um trabalho pessoal, não está descrito simplesmente nos livros de astrologia, nem nos mais bonitos e complicados. Conquistar a consciencia destes significados maiores da Lua depende de abrir mão de muitas defesas, de padrões bastante profundos, e isto pode ser um pouco doloroso e nos colocar em uma situação temporária de insegurança e vazio, pelo menos até encontrarmos a nós mesmos, e esta situação de insegurança chama “o Medo”.

Leloup nos propõe que o Medo e o Desejo são duas faces da mesma moeda, caminham juntos, surgem ao mesmo tempo em nossa existencia: o Desejo de Viver e o Medo de Morrer. Bem, se raciocinarmos em cima desta premissa, podemos supor que o Desejo é o antidoto, o elemento que se pode usar para combater o Medo, e talvez vice-versa.

Bem, se nos focalizarmos no Desejo, talvez tenhamos ai um instrumento poderoso para conquistarmos esta mulher interior e nos libertarmos de um estado de dependencia infantil e passiva diante da vida.

O desejo, o ato de desejar esta mulher é um atrevimento, pois não podemos, por um princípio biológico, desejar a mãe como mulher, então, para “desejar” esta mulher que mora em nós, precisamos dar um “upgrade” nela, transforma-la simplesmente em Mulher, e este desejo – que deve ser muito, muito profundo e sincero, pois nenhuma mulher do mundo vai se comparar a esta em termos de compatibilidade conosco, pois éla é nossa própria alma -- , vai nos conduzir à conquista dela, e à possibilidade de te-la ao nosso lado, e não mais “pairando” sobre nós.

Enamorar-se da Lua, parece uma banal figura poética, mas é um ato de libertação profunda, é o caminho para a possibilidade de nos transformarmos e sermos nós mesmos e, finalmente, entrarmos em sintonia com nosso próprio destino e projeto de vida, e não mais a sintonia com a segurança e eterna estabilidade que nos foi apresentada.

Este desejo é fundamental, está dentro de nós a capacidade de desejar esta mulher, como em algum momento tivemos desejo pelo seio da mãe, é apenas uma mudança de oitava, uma mudança de compreensão do que devemos fazer para seguirmos em direção a nós mesmos, e este desejo, o gesto do desejo pela própria alma, pela Lua, produz uma substancia misteriosa, um tipo de endorfina do espírito e da consciencia, um fluido mágico que pode nos conduzir aos confins do universo e aos confins de nós mesmos e esta substância é o que muitas vezes chamamos de Amor, a própria essencia do Amor.


Ocorre então o medo da separação. E este medo da separação se somatiza no adulto, algumas vezes por regressões, através do álcool e da droga. Como uma maneira de se dissolver, uma maneira de reabsorver a dualidade através da bebida e da droga. É uma regressão. Veremos que é preciso superar a dualidade, mas a superação desta dualidade não é a sua dissolução, é a sua integração, uma passagem para ir mais longe.


VB – Saturno paira solitário no meio do céu, no ponto que representa todo nosso comprometimento social, e o MC está em quadratura natural com a casa VII e o ascendente, da mesma forma que a casa IV, regida pela Lua está em quadratura com estes dois pontos, o do projeto de vida e o das associações.

Este medo da separação pode ser analisado astrológicamente através destas quadraturas, destas tensões essenciais entre a casa de Saturno e o eixo ascendente-descendente. A pressão que existe, ou melhor dizendo, a tensão entre as possibilidades de relacionamento e todas as condições saturninas, as condições sociais, a imposição de padrões sociais sobre os critérios de relacionamento da casa VII e o desenvolvimento da personalidade representado pelo ascendente.

Esta tensão toda, o Medo de fracassar socialmente por não realizar os significados da casa I e da casa VII faz com que a pessoa procure válvulas de escape como forma de protestar contra a pressão de Saturno, e álcool e drogas são uma via de protesto e de pseudo libertação pertinentes à estrutura social na qual vivemos. Reforçamos a dualidade, que no caso é a tensão entre o meio do céu e as casas do horizonte (I e VII).


Certas vezes, alguns dentre nós têm medo de evoluir, têm medo da solidão, têm medo da separação da mãe e do seu meio. Utilizam produtos ou técnicas para regredirem à mãe e não irem mais longe.


VB - É interessante que o medo de evoluir esteja ligado ao medo de separar-se das mãe. E neste caso, a mãe passa a ser uma referencia da não-evolução, ou seja, a Lua vai funcionar como um lastro, uma referencia à qual nos apegamos para não ter que seguir adiante.

O medo da separação da mãe muitas vezes nos acompanha durante toda vida, e é a base de toda nossa dificuldade em nos separarmos das coisas, daquelas às quais nos acostumamos, aquelas que dão uma ilusão de segurança, de algo sobre o qual temos controle. Mas acima de tudo, o medo da separação da mãe é o medo de romper com o passado, o que nos a um entendimento fundamental sobre nossos medos e sobre o significado de Saturno em nossas vidas: a essência do medo não é simbolizada por Saturno, é sim pela Lua.

O medo que podemos ter é medo do futuro, medo do que vem pela frente, medo de fracassar, de ficar mal, de nossos empreendimentos e planos não darem certo. O passado, a manutenção do que “é” ou do que “foi” não representa o medo, mas é a base do medo, é o fundamento de termos medo, medo de perdermos aquilo. Portanto, o medo é alimentado pelo passado, pela lua, pela dificuldade em romper com aquilo e enfrentar o futuro (casa X), o desconhecido, ou o destino se preferirem, e neste caso, Saturno não é a fonte do medo, mas o espelho onde reconhecemos nossos medos.

Todo medo é medo do que pode vir, mas para ter medo do que pode vir, eu tenho que ter algo que já é em minha vida, algo que já veio, algo de que eu não quero me desapegar, e isto é meu passado, minha historia, minha vida, tudo que é simbolizado pela Lua e pela casa IV.

O medo de evoluir é um bloqueio em relação ao futuro. O medo da solidão é também o medo da não aceitação pelas outras pessoas, o medo de nossa imagem não ser adequada, não se encaixar, e por isso, resistimos o quanto podemos à mudar, nos apegamos aos lastros, aos padrões, aos conceitos que se estabeleceram em nossas vidas desde a infância e que nos dão a segurança de um colo de mãe.


A criança, que supera o medo da separação de sua mãe, vai procurar um novo lugar de identificação. Ela vai descobrir o seu próprio corpo como sendo diferente do corpo de sua mãe. É uma etapa importante. Mas ao mesmo tempo em que descobre seu corpo com prazer, ao mesmo tempo em que brinca com todos os seus membros, em que ente o desejo do corpo, a criança sente medo da decomposição. Este medo situa-se na fase anal. No momento em que, através do seu cocô, a criança tem a impressão de que seu corpo se decompõe. Nessa fase, toda a educação é fazê-la ter consciência de que ela é seu corpo, mas não é somente este coro. É freqüente a observação de crianças que gritam à noite, quando fazem cocô, necessitando serem tranqüilizadas. Se a criança superar este medo da decomposição, ela vai descobrir que é maior que seu próprio corpo.


VB – Superar o medo da separação da mãe significa enfrentar Saturno, enfrentar nossos compromissos e responsabilidades sociais. Significa nos expormos e assumirmos nosso papel no mundo, mas tudo isto implica na necessidade de enfrentarmos a Lua e tudo que ela representa em nossos horóscopos e em nossas vidas, e isto é extremamente doloroso, e às vezes dramático, pois representa um rompimento com o que é fácil e um contato frente a frente com o significado de Saturno, ou seja, com nossos limites e com a possibilidade de falharmos aos olhos do mundo.

O medo da decomposição, medo do cocô, é o medo do que é natural e está dentro de nós, é o próprio medo da transformação, e também está relacionado aos fluidos de nosso corpo, representados pela Lua.

Na idade adulta podem persistir um certo número de fixações. Da mesma forma em que no estágio precedente a criança buscava a unidade através da fase oral, nesta fase ela vai buscara a unidade através da posse, do poder. Possuir a matéria. A palavra “possedere”, em latim, quer dizer “sentar-se em cima”, possuir. Corresponde, em Freud, ao estágio sádico-anal, um modo de tratar o outro como uma coisa, como uma matéria. Nessas pessoas que buscam, freqüentemente, a posse e o poder, esconde-se um grande medo da decomposição, um dedo da doença, um dedo de tudo o que desfigure o corpo.
 

Se a criança é capaz de assumir este medo e de ultrapassá-lo, ela vai procurar um outro lugar de identificação. Ela vai entrar no desejo de unidade com outro sexo. É a fase edipiana. O homem e a mulher descobrem suas diferenças sexuais e, ao mesmo tempo em que há esta busca de unidade através da sexualidade, vem o medo da castração. O medo de perder este poder, dentro de uma relação com um outro que é diferente dele.


E alguns podem ficar fixados nesta etapa de evolução. Aqueles que buscam, por exemplo, a unidade, a felicidade, unicamente através de sua genitália. Ou ainda, aqueles que têm medo de viver esta relação, o que pode levar às situações de impotência e frigidez.



Se o homem e a mulher se descobrem sexuados, mas não sendo apenas isso, de novo vão poder crescer. Ocorrerá o desejo de corresponderem à imagem que seus pais têm deles. Na psicologia freudiana, este desejo é chamado Imago parental ou Persona. E, ao mesmo tempo em que aparece o desejo de corresponder a esta imagem, surge o medo de não corresponder a ela.



Existem adultos que vivem ainda com este medo de não corresponder à imagem que seus pais tiveram delas. Eles não vivem seus próprios desejos, mas o desejo de suas mães ou o desejo de seus pais. Aí entra o trabalho da análise –descobrir qual é o meu próprio desejo e diferenciá-lo daquele do meu pai ou da minha mãe. Isto não quer dizer rejeitá-los, mesmo que dê margem a alguns conflitos.



É por esta razão que o conflito entre adolescentes e seus pais é tão importante. É o momento em que o filho adolescente experimenta diferenciar o seu desejo do desejo de seus pais.


Quando ele procura descobrir sua própria palavra, diferente da palavra de seus pais. E se ele é capaz de superar este medo, o medo de não agradar a seus pais, o medo de ser rejeitado ou julgado por eles, ele então vai crescer no sentido de sua autonomia.



Surge o despertar para um novo desejo de unidade, o da identidade dele mesmo. É nesta fase que aparece o desejo de corresponder à imagem do “homem de bem” e da “mulher de bem”, tal como considerado em nossa sociedade. Não é mais somente a Imago parental, mas sim a Imago social. Ao mesmo tempo em que ele tem o desejo de corresponder a esta imagem social, nasce o medo de ser rejeitado pela sociedade. O medo de não ser como os outros, o medo de não parecer conforme o que é considerado “bem” dentro dos padrões sociais esperados.



O medo de não parecer semelhante é um medo muito profundo, que nós vamos estudar com mais detalhes em Jonas. O medo do ostracismo, o medo de ser rejeitado pelo seu grupo, o medo de ser rejeitado pela sociedade. Aí o homem se encontra num conflito interior difícil, porque o seu desejo interior impele-o à ação, a dizer palavras que são às vezes consideradas como loucas pela sociedade. Ele tem medo de estar louco. Ele tem medo de ser anormal.



Mas se ele é capaz de superar este medo, se é capaz de aceitar que os outros não o compreendam, se é capaz de assumir a rejeição do seu meio, ele vai crescer no sentido da sua autonomia. O que motiva a sua ação não é o que pensam os seus pais, não são os seus impulsos anais ou genitais, não são as suas imagens sociais, mas é sua própria voz interior.



E ele chega a um nível de evolução bem elevado, que é uma liberdade em relação ao mundo do Id (na tipologia freudiana do termo) e livre, mas também, em relação ao mundo do Superego. Livre das expectativas geradas pelos pais, no que concerne à sua vontade, seus desejos, suas palavras.



Mas ao mesmo tempo que nasce este desejo de autonomia, esta experiência de liberdade, há também o medo de perder esta autonomia, de perder o Ego, o Eu que está em sua pele, o Eu bem diferenciado do seu meio, dos seus pais e de seus impulsos. É o momento em que o Eu se sente ameaçado pelo Self. É preciso um grande trabalho para atingirmos o Eu autônomo, para se diferenciar da mãe, da sociedade, do meio.



Neste momento, uma voz interior recoloca tudo isto em questão. Entra-se no desejo do Self e do medo de perder o Ego. O Ego ou eu é uma abertura do ser humano a toda a sua potencialidade e o Self é esta realidade transcendental, que relativiza a beleza desta autonomia e que nos revela que há um Eu maior que o eu, que há um Eu mais inteligente que o eu, que há um Eu mais amoroso que o eu.



Mas para ter acesso a este Eu mais elevado deve-se soltar as rédeas deste Eu. E passamo a uma etapa superior, que é a de entrarmos no desejo de nos fazermos um, com aquele que chamamos Deus. Esta imagem de um Deus bom, de um Deus justo, que é a projeção, no Absoluto, das mais elevadas qualidades humanas. Diante de determinadas situações, Deus não se mostra justo como a idéia que nós temos da justiça. Ele não se mostra bom como a idéia que temos da bondade. Ele não é amor como a idéia que temos do amor. Ele não é luz como a idéia que temos da luz.



Surge, então, um medo que os místicos conhecem bem, o medo de perder Deus. Sua imagem de Absoluto, sua representação de Absoluto. Passa-se pela experiência do vazio e esta experiência do vazio é a condição para ir a este país onde não há desejo nem medo. Não é o desejo de alguma coisa em particular nem o medo de alguma coisa em particular.



Nossa vida passa sobre esta escada. Não paramos de subir e descer. Seria interessante verificar quais são as fixações, quais são os nós, porque o terapeuta, na escuta daquele a quem acompanha, deverá voltar ao ponto onde houve um bloqueio. E, para reconhecer o ponto onde houve esta parada, este bloqueio, é suficiente interrogar onde está o medo.



Será o nosso medo, simplesmente, o medo de viver, o medo de existir? Quando nos sentimos demais na existência? Então podemos encontrar em nós mesmo o não-desejo de nossos pais. Descobrimos que não fomos queridos na nossa existência. É preciso passar pela aceitação deste não-desejo para descobrir, além do não-desejo de nossos pais, o desejo da vida que, em certos momentos, nos fez existir.



Nosso medo poderá ser o medo da separação. É interessante observar o modo como as pessoas morrem. O medo da morte é diferente para cada um. Para alguns é realmente o medo da decomposição, do sofrimento, da doença. Para outros é o medo da separação, de serem cortados daqueles que lhes são mais caros.

Assim nosso medo se enraíza em momentos muito particulares das nossa existência, e escutar o nosso medo nos permite entrar em contato com esse momento. O terapeuta está ali para nos ensinar a não termos medo do medo. A fazer dele um instrumento para nossa evolução, descobrindo o desejo de viver que se esconde atrás deste medo. E que vai nos permitir ir mais longe.



Nosso medo pode estar, também, ao nível da sexualidade. O medo do outro sexo. Este medo foi bem estudado por Freud. Não é suficiente superarmos o medo a este nível para atingirmos o nível seguinte.

Ter uma sexualidade normal, estar bem adaptado à sociedade, o que é, na maioria das vezes, um critério de saúde, em outra antropologia não é, obrigatoriamente, um critério de saúde. Estar bem adaptado a uma sociedade doente não é, necessariamente, um sinal de saúde. É isto que eu chamo de “normose”, ao lado da neurose e da psicose.



É neste ponto que nos reunimos a Jonas. Jonas é alguém que sente nele asas para voar, um desejo de espaço, um desejo de infinito, mas não tem coragem. Ele apara suas asas, para continuar adaptado à sociedade na qual ele se encontra e que o proíbe de ir ao outro, de ir ao inimigo, de ir ao diferente.


Aqui começa o Complexo de Jonas. Este desejo de irmos além da imagem que nossos pais têm de nós. Este desejo de irmos além das imagens que a sociedade nos propõe, do que é o “homem de bem” ou uma “mulher de bem”. Este desejo de irmos alem do Eu, alem do que o Ego considera como sendo o bem. E irmos também alem da imagem que temos de Deus.

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